Veja como medir inovações antes de implementar

Porvir – 08/04/13 – 

Há menos de dez anos, o cenário das escolas públicas da cidade de Nova York era desalentador. As taxas de conclusão do ensino médio eram baixas, alunos e professores estavam desmotivados e a rede, como um todo, carecia de renovação. Foi então que o prefeito Michael Bloomberg, que antes de ser político, foi um respeitado homem de negócios, começou a implementar uma série de ações para mudar isso. Primeiro, ele empoderou diretores, tornando-os CEOs de suas escolas. Aumentou os salários dos professores, fez um raio-X da rede, desmembrou escolas grandes em unidades menores e fechou as que estavam em pior estado.

Mais recentemente, Bloomberg, que já está em seu terceiro mandato, criou o iZone, um programa de incentivo à inovação nas escolas da rede. Primeiro, ele beneficiou 80 escolas e agora já há previsão de chegar a 400. As escolas participantes do iZone recebem apoio técnico, pedagógico e financeiro para repensar suas estruturas e propor mudanças que façam com que a escola seja capaz de oferecer um aprendizado relevante a crianças e jovens. Não há uma receita de bolo. Cada uma, a partir de seu DNA, do perfil dos alunos que recebe e a infraestrutura que tem disponível, decide como pode modernizer e potencializar as oportunidades de aprendizado.

Pela primeira vez no Brasil, Seth Schoenfeld, responsável pelo departamento de inovação do programa, participou de um bate-papo durante o Transformar com Claudia Costin, secretária de Educação do município do Rio de Janeiro, outra rede que tem procurado trazer inovações às suas escolas. Em entrevista ao Porvir, ele explicou o funcionamento do iZone e deu dicas de como criar um ambiente propício à inovação em sistemas públicos. Talvez a mais importante delas: “Descubram como medir inovações antes de implementá-las”, sugeriu.

 

crédito Poles/ Fotolia.com

 

Confira, a seguir, a entrevista exclusiva:

O iZone está vivendo uma franca expansão. Começou com 80 escolas, foi para 160 e já há a previsão de chegar a 400. O que vocês aprenderam com o programa até agora?
Atualmente estamos em cerca de 250 escolas. Todos os anos o número de escolas que se inscreve no programa aumenta. Uma das razões pelas quais nossa demanda é tão alta se deve à forte comunidade que se estabeleceu como parte do iZone. Escolas e diretores sentem que estão fazendo parte de algo realmente importante e que tem sentido. Isso faz com que outras queiram fazer parte desse trabalho. Os benefícios que as escolas recebem em termos de apoio e orientação também são fatores importantes nesse aumento.

Como o iZone foi estruturado?
O iZone foi estabelecido a partir de três pilares.

1. iZone 360. É focado no redesign de toda a escola. Escolas recebem o apoio de um Design Partner [parceiro para o design, em livre tradução] e de um Component Partner [parceiro para a composição], que ajudam a reimaginar a escola [leia mais sobre iZone 360 abaixo];

2. iLearnNYC. É focado em soluções on-line e de aprendizado híbrido para se chegar ao aprendizado personalizado. Escolas têm acesso a um LMS (Learning Management System) [conhecido em português por Sistema de Gestão da Aprendizagem, softwares desenvolvidos para o aprendizado virtual] com conteúdo de 17 editoras para serem usados e/ou comprados. O LMS tem uma funcionalidade que permite aos professores criarem seus próprios cursos e conteúdo. Nós compramos licenças de uso de conteúdo em escala. Uma estrutura chamada de Lab School reúne escolas e diretores para discutir sobre formas de implementação de modelos inovadores.

3. InnovateNYC. Tem foco em criar um ecossistema favorável à educação e tecnologia.

 

crédito Dilvugação

 

Você consegue perceber modelos diferentes no seu sistema?
A abordagem original do iZone para a inovação foi dar o apoio e os recursos necessários para que as escolas criassem suas próprias práticas inovadoras. O que nós percebemos é que essas mais de 200 escolas lidaram com a proposta de formas diferentes e, com isso, chegaram a modelos diferentes. Estamos trabalhando no sentido de escolher as melhores práticas e descobrir formas de torná-las escaláveis e sustentáveis.

As escolas do iZone também estão investindo em inovações off-line? Pode dar exemplos?
Sim. No iZone 360, as escolas passam por um processo de redesenho complete, com preocupação em ressignificar 1) espaço e tempo; 2) currículo e avaliação; 3) papel dos alunos, professores e funcionários; e 4) ritmo e horários dos alunos. As inovações que surgiram com o iZone foram muito variadas, compreendendo soluções que não usam tecnologia e outras mais high-tech. Alguns exemplos de inovações off-line são o desenvolvimento de seminários realizados sob responsabilidade dos alunos e programas de extensão do tempo do aprendizado.

Por que é importante tratar os diretores como CEOs de suas escolas?
Por muitos anos, a taxa de conclusão de ensino médio de Nova York era baixa e estagnada. Para começar a aumentar esses índices, foi dada mais autonomia aos diretores e passou-se a exigir prestação de contas, mas também fizeram deles responsáveis pelo sucesso de suas escolas. Esse tipo de sentimento de pertencimento e a necessidade de prestação de contas provocou um aumento significativo nas taxas de conclusão do ensino médio nos últimos 10 anos. O iZone seguiu essa teoria e acreditou que os diretores são as pessoas que estão em melhor posição para saber o que as escolas precisam e o que fazer para prover essas necessidades.

Paralelamente, o iZone está começando um programa de treinamento de professores que vai dar certificado em ensino on-line e híbrido.

Que tipo de características do mundo dos negócios são úteis na liderança de uma escolar? Vocês acham que as escolas devem se parecer com uma startup?
Eu acho que precisamos começar a repensar como escolas devem ser. Elas podem ser como startups, mas também podem ter características que as assemelhem a outros modelos de negócios, como museus e hospitais. Precisamos sair desse padrão único de escolas.

Como os professores estão sendo preparados para esses tempos novos?
O iZone oferece desenvolvimento profissional para todos os professores. As escolas que optaram por um modelo de aprendizado híbrido estão investindo bastante em recursos e na preparação de seus professores para esse novo ambiente. Paralelamente, o iZone está começando um programa de treinamento de professores que vai dar certificado em ensino on-line e híbrido.

O iZone começou em 2011. Já é possível falar em resultados?
Ainda não temos dados definitivos, mas indicadores prévios, como o aumento pela procura de escolas que querem fazer parte do iZone, mostram nosso sucesso.

No Brasil, escolas públicas não têm muita liberdade em gastar o dinheiro que recebem no que quiserem nem podem contratar ou demitir professores. Mesmo assim é possível inovar?
Sim. A inovação começa ao se ver o problema de uma forma diferente, e não insistindo na ideia de que o problema sempre existiu.

Qual é o ponto mais importante para se começar a inovar em escolas públicas?
Tente identificar barreiras pré-existentes, como limitações jurídicas, com antecedência. Além disso, as inovações não conseguem viver sozinhas. Elas precisam incluir outros atores do universo educacional, como as secretarias de Educação. O diálogo prévio com eles é sempre importante.

Que tipo de dica você poderia dar aos sistemas brasileiros?
Vocês têm que pensar em sustentabilidade, escalabilidade e retorno de investimento já no início. Têm que descobrir uma matriz capaz de medir o sucesso antes de começar o processo de implementação de novos modelos nas escolas.

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